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Sessão de Terapia e o enfrentamento do câncer

“Gostaria de saber se as pessoas te procuram para contar de coisas pesadas”. É desta forma que a personagem Carol Martins, interpretada por Bianca Comparato, é apresentada ao público no primeiro vídeo de divulgação da 2ª temporada do seriado Sessão de Terapia, que estreia na próxima segunda, dia 7, no canal GNT. Carol, uma jovem de 25 anos, acaba de receber o diagnóstico de linfoma e decide ir ao divã do psicanalista Théo (Zécarlos Machado) para lidar com uma doença que, na voz dela, é uma sentença de morte.

Carol, que recebeu diagnóstico de linfoma, será a paciente de Théo às segundas-feiras
Carol, que recebeu diagnóstico de linfoma, será a paciente de Théo às segundas-feiras

Dirigida por Selton Mello, a série Sessão de Terapia é uma adaptação do original israelense Be Tipul, mas foi com a versão norte-americana sob o título In Treatment, produzida pelo canal HBO, que o formato ganhou repercussão mundial. Com 35 episódios, sempre com exibição inédita de segunda a sexta às 22h30, a série terá Carol como a paciente das segundas-feiras e assim será ao longo de sete semanas.

Os produtores definem Carol como uma jovem introspectiva e com problemas de relacionamento com uma mãe ausente e um irmão maníaco depressivo, que se recusa a tratar o câncer e a contar à sua família sobre a sua doença. De acordo com a psicóloga oncologista do A.C.Camargo Cancer Center, Christina Haas Tarabay, ao se deparar com o medo da morte, do sofrimento e da dor, algumas barreiras de ordem psíquica podem se instaurar e dificultar o ato de falar sobre a doença, principalmente no caso de um paciente jovem.

Christina Haas Tarabay
Christina Haas Tarabay

Nesta entrevista exclusiva do blog jornalismOncologia, Christina Tarabay comenta sobre o quanto é individual a forma de enfrentamento do câncer por pacientes na faixa etária da personagem Carol, o papel do psicólogo em acolher o paciente e suas possíveis angústias, além de trazer a sua visão sobre como o jornalismo e a dramaturgia abordam o enfrentamento do câncer, desmistificando questões ou criando novos mitos.

 jornalismOncologia – A personagem Carol, da 2ª temporada da série Sessão de Terapia, da GNT, é descrita no vídeo de apresentação como uma jovem de 23 anos, estudante de arquitetura que, ao receber o diagnóstico de câncer, sente-se amedrontada e não compartilha a notícia com a família. Entre os pacientes que optam por não falar com familiares e amigos sobre o câncer quais são as questões que costumam ser mais determinantes? Como a terapia pode fazer com que o paciente sinta-se mais confortável em compartilhar o tema?

Christina Haas Tarabay – A comunicação de um diagnóstico de câncer assinala o princípio de uma série de mudanças na vida do paciente e consequentemente de sua família. O estresse gerado pelo diagnóstico de uma doença grave pode provocar diversas reações no paciente, sendo algumas delas inesperadas e consideradas incompreensíveis por quem não está vivenciando o problema de primeira pessoa. Mas fato é, que o paciente que está doente se vê diante de uma proposta de tratamento, muitas vezes a longo prazo, com seus medos e angústias e muitas vezes enfrenta dificuldades em dividir essa dor com os entes queridos. Ou seja, algo que parece natural, imediato e quase um dever, que é contar para a família, pode não ser tão simples assim. Ao se deparar com o medo da morte, do sofrimento e da dor, algumas barreiras de ordem psíquica podem se instaurar e dificultar o ato de falar sobre a doença, principalmente no caso de um paciente jovem.

Quando um paciente com câncer opta por não contar aos seus familiares e amigos sobre o adoecimento, devemos levar em conta alguns fatores: como era constituída a relação familiar desde sempre, ou seja, o contexto familiar em que está inserido esse paciente pode ser determinante sobre o contar ou não. Se for uma família mais “continente”, no sentido de acolhedora, talvez o caminho para contar possa ser menos tortuoso. Porém, até mesmo quando o paciente tem um bom relacionamento com seus familiares pode ser difícil trazer a notícia da doença para dentro de casa, até mesmo por não querer ver as pessoas tão amadas sofrerem por conta do diagnóstico. Apesar de o sofrimento fazer parte do universo humano, lidar com este pode não ser tão simples assim, ainda mais quando temos a sensação de estar causando sofrimento para as pessoas que amamos. A questão pode estar localizada na fantasia que esse paciente tem a respeito do efeito do câncer sobre sua família. Quando esse tipo de dificuldade está presente, a psicoterapia pode ajudar promovendo uma reflexão aprofundada sobre quais os motivos que estão impedindo o paciente de falar sobre uma questão tão séria em um momento de possível fragilidade emocional. Além disso, ajudá-lo a ativar recursos internos visando manejar uma reorganização da dinâmica familiar agora diante do fato de ter um membro desta família com câncer. O importante é compreender os reais motivos que estão impedindo esse paciente de falar sobre sua doença e principalmente poder dar voz a subjetividade deste indivíduo que vai muito além do diagnóstico. Talvez se trate do silêncio que mais barulho faça na vida de uma pessoa…

 O senso comum é de que o sentimento ao receber o diagnóstico de câncer é algo individual. Em se tratando de pacientes mulheres, na faixa dos 20 aos 40 anos, que – muitas vezes – estão entre o início e o ápice de sua força produtiva, quais são as questões mais aflitivas para elas ao receber o diagnóstico de câncer?

Sem dúvida somos seres imersos em nossa subjetividade e, portanto as reações ao se receber um diagnóstico de câncer são muito particulares. Com frequência é sentido como muito assustador em qualquer idade, porém nessa faixa etária as fantasias a respeito dessa doença podem ser vivenciadas de maneira mais intensa. Surpresa, choque, algo da ordem do inesperado… dúvidas, medo, mas por outro lado desafios e possibilidades! Sem dúvida é uma idade produtiva em todos os aspectos da vida dessa mulher, afetivo, maternidade, estudo, vida profissional e que de alguma forma, mesmo que temporariamente, a vida dessa mulher irá sofrer mudanças em sua rotina. As questões mais presentes nesse momento dizem respeito aos domínios de ordem física, psíquica e social, ou seja, a vida como um todo. Questões relacionadas à alteração da imagem corporal, possibilidade ou não de engravidar, medo de não ser aceita socialmente; ameaça aos planos de vida, ansiedade, possíveis estados depressivos; receio de perder o trabalho, risco de interromper os estudos, sobrecarregar os familiares com o tratamento. Uma grande mescla de sentimentos invade o aparelho psíquico e procura de alguma maneira delinear uma forma de enfrentar esse momento.

 O medo de sofrer mutilação, de não poder ser mãe, dentre outras questões, podem permear o pensamento de uma paciente oncológica.  Como o psicólogo pode atuar perante estas e outras questões que possuem um grande simbolismo para a mulher?

Alguns tratamentos podem ocasionar perdas do ponto de vista físico e têm imediatamente intensa repercussão no mundo psíquico do paciente. Trata-se de um corpo marcado por perdas altamente significativas. A paciente submetida à cirurgia mutiladora pode sofrer uma alteração grave de sua autoimagem que pode repercutir desde o medo da rejeição por parte do seu parceiro até mesmo no sentido da perda de referenciais conhecidos. Olhar-se no espelho com uma nova imagem corporal pode ocasionar a presença de sentimentos e reações até então desconhecidas. Algumas modalidades de tratamento podem levar a impossibilidade de engravidar, o que pode originar sensação de afastamento do ideal de ser mulher.  Portanto, entendemos que alguns tratamentos com suas consequências tão devastadoras têm repercussões importantes na identidade dessa mulher. O atendimento de suporte psicológico a essa paciente vem de encontro a criar um espaço propício para que essa mulher traga seus medos, angústias e indagações. A partir de seu discurso, sem fórmulas prontas, o psicólogo possa então acompanhá-la com base em uma escuta clínica, com o propósito de acolher e promover mudanças substanciais na forma como até o momento a paciente reconhece e vivencia a dor e o sofrimento presentes no adoecer.

 Atualmente o câncer é uma doença que, mesmo nos casos mais avançados, é passível de ser controlada. Ser otimista durante o tratamento é um quadro comum entre os pacientes hoje? Ele é, na prática, realmente benéfico?

Creio ser importante ressaltar que o paciente com câncer frequentemente vai elaborando seu diagnóstico com o “andar do tratamento”. O impacto do diagnóstico tende a ser um dos momentos difíceis, pois é o primeiro contato que ele tem com sua condição de estar doente. Diante desse diagnóstico, o temor do desconhecido, da possibilidade de mudança da rotina e do tratamento em si pode ser difícil de administrar nesse momento. Este processo de enfrentamento tem relação com os recursos psíquicos do paciente, bem como com os recursos familiares e sociais em que está inserido. É frequente que os pacientes apresentem padrões mais otimistas e de positividade e de certo modo essa forma de vivenciar o tratamento possibilita um melhor enfrentamento da situação, assim como melhor aderência ao tratamento. Porém, precisamos estar atentos para não impedir o paciente de expressar seu sofrimento nos momentos em que assim sentir e desejar; é importante oferecer um espaço que possibilite “não negar o sofrimento”. Isso significa compreender os medos da ordem do real do paciente.

O câncer carrega ainda o estigma de ser uma sentença de morte? São bem demarcadas nos pacientes as fases de negação, raiva, barganha, depressão e aceitação?

Ainda existe nos dias atuais uma forte associação entre câncer e morte, principalmente na fase inicial, ou seja, ao receber o diagnóstico. Porém, cada vez mais caminhamos em direção a dissipar tal estigma tão presente no imaginário das pessoas devido a tratamentos cada vez mais eficazes. A psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross pesquisou questões relacionadas à morte e o processo do luto, e descreveu 5 fases de luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Em síntese, na negação o paciente nega a presença do problema; a raiva diz respeito a estar passando por uma situação difícil, ressentimento; a barganha que é a tentativa de negociação para que a situação volte a ser como era antes; a depressão que tem relação com falta de esperança, sentimento de perda, sofrimento; a aceitação se refere ao paciente poder passar a enfrentar a situação. Cada fase traz pensamentos e comportamentos próprios e o paciente pode vivenciar ou não uma dessas fases, ou todas elas, como mecanismos a serviço do enfrentamento da doença. Uma mudança relevante, significativa na vida de uma pessoa pode desencadear tais vivências, porém é importante destacar que não necessariamente as fases acontecem nesta sequência, bem como não são todos os pacientes que passam por estas fases. No enfrentamento do câncer é importante ter a compreensão de que é uma vivência significativa na vida de uma pessoa, vivida de maneira pessoal e imersa em uma dimensão simbólica que ganha sentido na história de vida de cada um.

 O quanto a fé, independente de qual religião seja, influencia na conduta do paciente? O quanto esta influencia pode ser negativa e positiva?

O que se percebe no dia a dia dos pacientes é que a fé, e digo fé realmente como algo independente de religião, está presente com frequência no processo de um enfrentamento adequado os pacientes oncológicos. Apesar de entender que espiritualidade e religião possam ter uma ligação, são conceitos e práticas diferentes, uma vez que, a espiritualidade tem ligação com questões íntimas, sensação de equilíbrio e completude, uma força que tem conexão com o sentido da vida. Já a religião é baseada em uma organização de crenças. Ao ter fé entende-se que o alcance para que o paciente acredite no tratamento que vem sendo desenvolvido para ele, assim como, o processo de aceitação, adaptabilidade e enfrentamento se torna mais sereno. Em relação à questão da possibilidade da espiritualidade chegar a ser negativa no processo de adaptação do paciente em relação ao seu tratamento, pode existir esse risco quando o paciente associa a sua doença a uma punição, ou quando não adere ao seu tratamento delegando este a uma força maior como fator de resolução de problemas.  Mas na grande maioria das vezes, a espiritualidade é vista positivamente como valores que agregam ao tratamento harmonia e bem-estar, reafirmando a espiritualidade como importante mecanismo de enfrentamento, bem como importante recurso para sustentar o bem estar do paciente em todas as fases do tratamento oncológico.

Outras questões culturais também são determinantes na relação do paciente com o câncer?

Muito se fala da representação social do câncer. O câncer é uma doença que dentro de um contexto histórico se faz presente em nossa cultura há muito tempo. Com o passar do tempo, estamos assistindo cada vez mais progressos no tratamento desta doença que ainda causa medo e carrega por si só um impacto psicológico muito intenso. O avanço nas pesquisas, assim como o diagnóstico precoce são recursos importantíssimos na eficácia do tratamento oncológico. Importante também é cuidar dos aspectos sociais, culturais e emocionais que permeiam esse tratamento, já que o câncer ainda pode ser considerado uma doença estigmatizada em alguns pontos de vista. A cultura na qual um indivíduo está inserido influencia sua vida desde sempre em várias dimensões. Sendo assim, diante do diagnóstico de câncer, a constituição cultural se faz presente nas questões da conduta frente à doença, percepções em relação ao câncer, suporte familiar e social do paciente, questões referentes à autoimagem e o que se percebe no olhar do outro. Os significados culturais atribuídos ao câncer estão relacionados ao estigma que a doença carrega e para algumas pessoas torna-se difícil lidar com esses sentimentos arraigados dentro da sociedade quase sempre complexos de serem administrados.

Enfatizando agora o papel da mídia, qual avaliação a senhora faz – na condição de psicológica especializada em oncologia – da cobertura dos temas voltados ao câncer tanto pelo jornalismo quanto por obras de ficção como novelas e seriados de TV? Eles têm contribuído para esclarecer ou criar novos mitos? Na sua avaliação, qual forma de abordagem é mais benéfica para a sociedade?

O papel da mídia em relação ao câncer é fundamental em diversos âmbitos de atuação. Primeiramente para conscientizar a população quanto a importância do diagnóstico precoce. Nesse sentido associa-se qualidade de vida, exposição a fatores de risco e a relevância para os exames preventivos. A imprensa, com seu grande potencial de alcance atua como multiplicadora de informações e pode contribuir para ações de prevenção. Uma outra função que a mídia pode realizar é em relação ao estigma do câncer associado à morte, ideia ainda tão presente no imaginário de tantas pessoas. Ao trabalhar essa questão, a mídia (na forma de jornais, telejornais, internet, novelas, séries, filmes, redes sociais) poderá colaborar, por exemplo, incentivando as pessoas a procurarem o médico com menos medo em relação à possibilidade de um diagnóstico de câncer, afinal quando o desconhecido passa a ser conhecido há uma sensação apaziguadora da angústia. Quando em um seriado de TV ou em uma novela, há a presença de personagens com câncer, ocorre uma aproximação da possiblidade da doença, que pode acometer o indivíduo em qualquer fase da vida. Esse fato deve ser encarado de forma positiva, com uma função social, de estímulo às pessoas cuidarem de si mesmas e das pessoas que ama. É comum que ao assistir a trajetória de um personagem na TV que está com câncer, as pessoas se sensibilizem, se emocionem e provem sentimentos de amor, de agradecimento à vida, de união…se emocionar com sentimentos verdadeiros nunca é demais…valorizar os momentos…poder dar um destaque especial ao amor em nossas vidas! É importante que a mídia possa garantir a qualidade das informações divulgadas com o propósito de oferecer às pessoas, notícias que possam contribuir com a adoção de hábitos saudáveis e incentive as pessoas a procurar assistência médica caso identifiquem algum sintoma, sem adiar essa visita que pode ser determinante para o diagnóstico precoce.

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Blog do jornalista Moura Leite Netto, botonista amador, osasquense, são-paulino, torcedor também do Napoli, Lakers e Patriots e mestre e doutorando em Oncologia.

6 comentários em “Sessão de Terapia e o enfrentamento do câncer Deixe um comentário

  1. EMBORA nao tenha tido paciencia para ler tudo , pois estava assistindo sessão de terapia na Tv , discordo das musicas de funeral de fundo e do tom do terapeuta , muito noir e muito triste .faço analise e apesar da dor que esta subjacente , discordo da direção de Selton Mello.Nada de bom acontece com ninguém?ninguém jamais sorri? Meu deus , que coisa mais linear de seriedade?ninguem sorri nunca ? isso é irreal

  2. Não estou falando de quem sofre de cancer , mas de pacientes comuns .separação .Problemas com drogas e tal.

  3. Nunca vi o Theo sorrir .jamais . Selton ta exagerando nessa direção.Oooi Selton .A vida tem dor , mas não tem só dor .

  4. Pode ser que meu comentario , como nao se dirige a quem tem cancer , como meu pai teve e levava no bom humor até seus ultimos dias , posso ter feito comentario em pagina errada . Parece que o programa do Selton só se dirige a quem não consegue mais sorrir apesar da dor .Todos sorriem em meio a dor , caso contrario , é muita autopiedade, que nao ajuda a se curarem , inclusive do cancer, como meu pai teve uma vida bem mais longa que o prognostico do cancer .Ele ria do problema e amava sem parar.

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