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“As instituições deveriam ampliar as formas de acesso à informação sobre câncer

A jornalista Monica Tarantino, repórter especial de Saúde e Ciência da revista ISTOÉ, afirma que a tarefa de levar informação de qualidade para a população não é uma missão apenas da imprensa, como também das instituições voltadas à Oncologia. “Essa tarefa não é apenas da imprensa, ainda que a gente cumpra mais de 90% dessa função no País. As instituições deveriam fazer algo mais do que a campanha do câncer de mama”, afirma. Em entrevista exclusiva ao jornalismOncologia, Monica Tarantino avalia a influência das assessorias de imprensa que, para ela, nem sempre é positiva, assim como faz uma reflexão sobre como são eleitos os temas referentes ao câncer que são levados ao público brasileiro e internacional.

Monica Tarantino, jornalista especializada da ISTOÉ

jornalismOncologia – Ao se deparar com inúmeros press releases e sugestões de pauta qual é o grande desafio de se separar o joio do trigo? Quais são os critérios que, na sua visão, precisam ser considerados no momento de eleger a pauta sobre câncer que será trabalhada?

Monica Tarantino – Faço buscas online para averiguar se algo já foi publicado a respeito. Muitos releases oferecem informações sobre procedimentos e métodos como se fossem descobertas, ainda que não sejam. Boa parte também tenta “vender” médicos oncologistas e clínicas como “o primeiro profissional” ou o “primeiro centro” ou o “primeiro equipamento do Brasil”. Muito raramente isso é verdade. Dá trabalho checar isso e é bastante chato fazer isso, porque se perde tempo para descobrir que algo não é novo quando uma pessoa está afirmando que é. Levo muito em consideração o fato de a informação acrescentar alguma coisa ao que já foi publicado sobre o tema, se há trabalhos científicos publicados recentemente a respeito, se é relevante para as pessoas que sofrem da doença ou podem se beneficiar desse conhecimento e a credibilidade da fonte.

jornalismOncologia – Qual é o tipo de informação que pode levar o câncer a capa de uma edição da IstoÉ?

Monica Tarantino – Há diversas abordagens possíveis. Desde a descoberta dos mecanismos do câncer, o que tem aumentado por causa dos avanços da biologia molecular, a novos caminhos para tratar a doença e a aspectos socioeconômicos do tratamento. Outra possibilidade são mudanças nas políticas de atendimento.

jornalismOncologia – Como você avalia a agenda jornalística sobre câncer hoje no Brasil? Há assuntos que poderiam ser melhor e/ou mais explorados?

Monica Tarantino – Fala-se muito em novas terapias, chances de cura e prevenção, o que é correto. Porém fala-se pouco do que é viver com câncer, dos serviços e produtos existentes para essas pessoas. As matérias criticam as dificuldades de acesso, mas seria necessário falar ainda mais, expor mais o problema. Também acho que são poucas as iniciativas a serem noticiadas do ponto de vista da educação em saúde da população para o câncer. Essa tarefa não é apenas da imprensa, ainda que a gente cumpra mais de 90% dessa função no País. As instituições deveriam fazer algo mais do que a campanha do câncer de mama em outubro.

jornalismOncologia – É possível produzir um conteúdo sobre câncer baseado em evidência científica que seja inteligível para o público em geral? Quais elementos você busca contemplar? 

Monica Tarantino – Sim. Há uma preocupação crescente em conhecer a doença que acomete mais e mais pessoas. Isso aumenta a necessidade de selecionar informações bem fundamentadas. Nesse tipo de reportagem, é necessário que se possa explicar ao leitor porque determinada descoberta é relevante e de que modo ela poderá interferir no estudo do câncer. Muitas vezes é difícil veicular a importância de uma molécula em um tumor muito raro se isso não terá implicações em outros tumores.

jornalismOncologia – Qual é a sua avaliação do discurso da cobertura sobre câncer dos veículos brasileiros?

Monica Tarantino – O que ele difere e se assemelha em relação ao discurso da mídia internacional. A mídia internacional tende, muitas vezes, a exagerar nas chamadas e não entregar a matéria depois. Há um certo endeusamento das matérias da Time, por exemplo. Mas muitas vezes elas trazem uma chamada atraente na capa e o conteúdo não é exatamente o que dava a entender. Mas, ainda assim, muitas publicações tomam os assuntos tratados pela Time como um balizamento para a sua própria cobertura. Acho isso ruim. A semelhança se dá por aí.  Um outro lado da questão é o tema câncer me parece ter mais espaço na mídia estrangeira. Nos jornais e revistas americanos e ingleses, encontro maior quantidade de matérias reflexivas sobre as políticas de atendimento.

jornalismOncologia – Você acredita que difundir informação de qualidade pode, de fato, aumentar o conhecimento da população sobre diagnóstico precoce e, consequentemente, reduzir a mortalidade?

Monica Tarantino – Sim. E é plenamente necessário que as instituições criem canais mais diversificados para ampliar as formas de acesso à informação.

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Blog do jornalista Moura Leite Netto, botonista amador, osasquense, são-paulino, torcedor também do Napoli, Lakers e Patriots e mestre e doutorando em Oncologia.

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