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JN expõe dificuldades no SUS

Entre os dias 25 e 29 de janeiro de 2016 o Jornal Nacional, da TV Globo, exibiu uma série especial sobre câncer, enfatizando as dificuldades de acesso de muitos brasileiros ao diagnóstico e a um tratamento de qualidade, principalmente na rede pública. O tom da série foi prontamente dado em um breve texto na voz do âncora e editor-chefe do jornalístico, William Bonner.

“A partir de hoje, aqui no Jornal Nacional, uma série especial de reportagens vai tratar um desafio enorme que o Brasil precisa vencer pra ser mais justo. Porque o nosso país trata de forma desigual os pacientes de câncer. Os que têm acesso a hospitais privados ficam mais perto dos remédios mais modernos, das técnicas mais avançadas de tratamento. Mas os repórteres Graziela Azevedo e Ronaldo de Sousa mostram que 75% dos doentes dependem do SUS”, disse Bonner.

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Do Amapá ao sul do país, foram contadas histórias de personagens (pacientes e familiares), que enfrentam inúmeras dificuldades para ter a doença diagnosticada ou iniciar o tratamento e é justamente essa falta de acessibilidade que faz com que muitos pacientes deixem de ter suas vidas salvas desta doença que acomete quase 600 mil brasileiros todos os anos.

Como bem definiu o oncologista e diretor do Centro oncológico Antônio Ermírio de Moraes (Beneficência Portuguesa), Fernando Cotait Maluf, o câncer é uma doença que não perdoa falhas, não perdoa atrasos, não perdoa qualquer tipo de lentidão ou de falta de experiência. Como dito em sua sonora ao Jornal Nacional, “o grau de investimento na saúde no sistema público é menor, é pequeno, é insuficiente e obviamente você vai se deparar com uma situação de imensas limitações pra poder vencer essa batalha”.

Na segunda matéria abordou-se as disparidades no país quanto à quimioterapia e radioterapia. Uma das fontes ouvidas foi o presidente da Sociedade Brasileira de Radioterapia e diretor de Radioterapia do Hospital Albert Einstein, Eduardo Weltman, que comentou o anúncio feito em 2012 pelo Ministério da Saúde referente à compra de 80 aceleradores lineares (aparelho que propicia a Radioterapia), mas que não foi colocado em prática. “A hora que você vê no papel e como foi concebido é fabuloso”, disse ele. E a matéria complementa: para sair do papel, o programa de expansão da radioterapia precisaria de coordenação, do empenho de governos e hospitais. Além de físicos, médicos, técnicos, a instalação exige um local especial, protegido contra radiação.

Cirurgia foi o foco da terceira reportagem, ou melhor, a falta dela. Trouxe a história de uma paciente que não conseguiu ver cumprida a lei que que determina o início do tratamento em até 60 dias depois do diagnóstico. A personagem em questão foi diagnosticada com um tumor na coróide, cuja indicação é a braquiterapia. “É um tratamento que consiste em uma radioterapia de contato. A grande vantagem é a tentativa da preservação do olho e da visão, sendo uma radiação focalizada para aquela região do tumor”, afirmou em sonora a oftalmologista do A.C.Camargo Cancer Center, Márcia Motono.

A personagem, chamada Shirley, peregrinou durante meses entre a busca pelo diagnóstico e o início de tratamento. Tanto o diagnóstico tardio quanto o atraso no início da abordagem terapêutica fazem com que as chances de sucesso diminuam consideravelmente. Segundo a reportagem, as barreiras são mais frequentes para os pacientes que dependem do SUS.

Ouvida na reportagem, a presidente do Instituto Oncoguia, Luciana Holtz, afirma que o fluxo precisa ser mais transparente. Segundo ela, é importante “que eu possa ligar para uma central ou que eu possa acessar uma internet que me fale em que lugar da fila eu estou. ‘Vai para casa que te chamo’, não dá pra ser assim”, comenta Luciana.

Na penúltima matéria, exibida na quinta, 28, o Jornal Nacional direcionou seu olhar para o Instituto Nacional de Câncer (INCA), que foi tema de críticas contundentes de alguns de seus diretores. O alvo: os gestores públicos. Logo de início a edição da matéria destacou a fala do chefe de Urologia, Franz Campos. “O Inca precisa de pessoal. O Inca precisa de espaço físico e o Inca precisa, principalmente, do entendimento dessas questões pelos gestores públicos”.

Na sequência, o chefe de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do Inca, Roberto Araújo Lima, afirmou. “Nós não podemos abrir todas as salas, nós temos menos cirurgias por conta disso. E muitos doentes são penitenciados por esses problemas que nós vivemos”. Por fim, o ex-chefe de Cirurgia Abdominal e Pélvica do Inca, José Paulo de Jesus apontou que “o que está faltando é capacidade de gestão. Acho que o que falta é uma visão de técnicos. Colocar os técnicos nos seus devidos lugares”. Por esses e outros motivos, o INCA não é a referência que deveria ser. Na segunda parte da reportagem, falou-se sobre o REDOME, o registro nacional de doadores de medula óssea, que conforme veremos no final deste texto, mostrou a importância da difusão de informações de qualidade por parte da mídia.

Antes, falemos da última reportagem na série. Abriu-se com a história da paciente Karina Pereira de Oliveira, que foi diagnosticada com câncer de mama com metástase no pulmão, fígado e ossos. Um tumor agressivo, decorrente da dificuldade de acesso ao diagnóstico precoce.

“O nódulo, quando ele é palpável do tamanho de uma azeitona, ele é curável em mais de 80% das vezes. Se ele cresce e chega a atingir o tamanho de um limão, nós curamos 50%. Se chega ao tamanho de uma laranja – que é onde predominam em algumas regiões do Brasil – a chance de cura é bem menor”, destacou em sua sonora o médico do Hospital Pérola Byington, Luiz Henrique Gebrim.

Ao expor essas falhas o Jornal Nacional cumpriu o seu papel social. E, como mencionei acima, colheu frutos, que foram destacados pela âncora Renata Vasconcellos: “Ontem o Jornal Nacional mostrou a importância de que doadores de medula mantenham seus cadastros atualizados no Redome. Os brasileiros atenderam! E o número de atualizações que girava em torno de 150 por dia, saltou para mais de 2,4 mil. O pico de acesso aconteceu logo depois de a reportagem ir ao ar. Foi um movimento tão grande que algumas mensagens de erro surgiram no site, mas o Redome garante que todas as atualizações foram processadas”.

Que mais séries como essa sejam produzidas.

LINKS PARA AS REPORTAGENS:

Segunda, dia 25 – http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/brasileiros-deixam-casa-em-busca-de-tratamento-para-parentes-com-cancer.html

Terça, dia 26 – http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/brasileiros-com-cancer-sofrem-com-falta-de-aparelhos-de-quimioterapia.html

Quarta, dia 27 – http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/filas-para-cirurgias-aumentam-angustia-de-pacientes-com-cancer.html

Quinta, dia 28 – http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/crise-no-inca-do-rio-de-janeiro-afeta-tratamento-de-pacientes-com-cancer.html

Sexta, dia 29 – http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2016/01/demora-no-inicio-do-tratamento-faz-brasileiros-conviverem-com-o-cancer.html

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Blog do jornalista Moura Leite Netto, botonista amador, osasquense, são-paulino, torcedor também do Napoli, Lakers e Patriots e mestre e doutorando em Oncologia.

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