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Informações sobre câncer de boca no Brasil são de baixa qualidade, afirma estudo

As informações em português brasileiro disponíveis na internet sobre câncer de boca são de baixa qualidade ou têm pouca utilidade. Essa é a observação do estudo “Quality of information about oral cancer in Brazilian Portuguese available on Google, Youtube, and Instagram”, publicado em maio de 2020 na revista científica Medicina oral, patologia oral y cirurgia bucal, da Sociedade Espanhola de Medicina Oral, com sede em Valência.

Os pesquisadores dizem que se surpreendem com o fato de que ainda existem pessoas que desconhecem a existência do câncer na boca. Por isso, nunca é demais lembrar as informações básicas: cigarro e álcool são os principais fatores de risco. “Independentemente da idade, se a pessoa é fumante ou consumidora frequente de bebidas alcoólicas, deve procurar um cirurgião-dentista se notar uma ferida na boca, dolorosa ou não, ou se verificar uma mancha branca ou vermelha que não cicatriza após 15 dias”, alertam Kamilla e Danyel.

Para os colegas cirurgiões-dentistas, eles dão outro recado: “há uma tendência de aumento do número de casos em pacientes mais jovens e não tabagistas. Por isso, um exame clínico detalhado é fundamental em todos os pacientes, independentemente da idade ou de hábitos nocivos à saúde. Atentem para úlceras que não apresentam tendência a cicatrizar, especialmente as indolores, e para manchas brancas ou vermelhas que não estejam associadas a traumas crônicos. Nesses casos, seja qual for a idade ou hábitos, a biópsia deve ser realizada. Se não se sentir seguro para conduzir o caso, encaminhe imediatamente para um especialista”.

A investigação, realizada por pesquisadores das Faculdades de Odontologia das universidades federais de Pernambuco e da Paraíba, contemplou 34 sites, 39 publicações no Instagram e 57 vídeos do YouTube. Dois dos autores do artigo, Kamilla Karla Maurício Passos e Danyel Elias da Cruz Perez, ambos da UFPE, explicam, em entrevista ao blog, que a escolha do tema e do objeto do estudo levou em consideração o fato de sites, Instagram e YouTube serem muito acessados e, além disso, “de as informações serem veiculadas de formas diferentes em cada um deles, com textos mais longos em sites, vídeos no YouTube e postagens e vídeos mais curtos no Instagram. Notamos também que as informações em saúde, incluindo aquelas que abordam o câncer de boca, são publicadas com maior frequências nessas três mídias”.

Os pesquisadores alertam que o câncer de boca é um problema de saúde pública, com a estimativa de ocorrência no Brasil de 15 mil novos casos em 2020 e 2021, conforme dados do Instituto Nacional do Câncer. Por isso, é importante não só pela incidência, mas pelo fato de a maioria dos pacientes procurar o médico com a doença já avançada, o que resulta em maior morbidade, ou seja, na necessidade de cirurgias mais extensas, radioterapia, maior risco de morte, além de sequelas graves.

Eles afirmam que, para mudar esse panorama, uma das estratégias é investir na comunicação. “A internet é uma ferramenta poderosa para difundir informações, mas, como não existem políticas editorias e não há instrumentos disponíveis para a população avaliar a qualidade do que é publicado na internet, propusemos a realização desse estudo. Com os dados da pesquisa, temos o retrato da qualidade da informação sobre câncer de boca veiculada em várias mídias e, a partir daí, podemos propor medidas para melhorar, nos casos de baixa qualidade, ou para manter o nível das publicações sobre a doença postadas na internet”, dizem.  

Mesmo antes do início do estudo, a percepção dos cientistas era de que a informação não era de boa qualidade. “Havia muitas pessoas falando sobre a doença, mas sem a expertise necessária para tal. Com os resultados, nossa hipótese se confirmou”, relatam Kamilla e Danyel. Eles contam que quase não existe comunicação com o público leigo sobre o câncer de boca. “Há algumas campanhas pontuais de divulgação da informação, mas é muito pouco.

Recentemente, nós avaliamos o conhecimento sobre câncer de boca em pacientes que estavam em tratamento odontológico em clínicas-escola de duas faculdades de Odontologia. A conclusão a que chegamos é que, mesmo dentro de uma escola de Odontologia, não se fala em câncer de boca, a não ser nas disciplinas de Patologia Oral e Estomatologia. Quando se fala em doenças da boca, na orientação do paciente, lembra-se apenas de cárie e doença periodontal. Essa é uma realidade que precisa ser modificada”.

Para os pesquisadores, essa realidade se reflete no interesse dos profissionais pelo assunto, o que mostra que a formação em Odontologia no Brasil ainda é muito tecnicista. “É natural que haja maior interesse do profissional por áreas que envolvam estética e beleza. Mas isso não significa esquecer das outras regiões da boca e o profissional deve se lembrar que há a possibilidade de atender algum paciente com câncer de boca. Diagnosticar um paciente com câncer de boca, sobretudo em estádios clínicos iniciais, é dar a ele uma grande chance de ter sua saúde de volta, com menos morbidade e maior chance de cura.

Durante a formação profissional, vários estudantes se interessam pelo assunto, mas ele é ministrado usualmente na metade do curso e por um curto período, quando consideramos a carga horária total do curso de Odontologia. “Acreditamos que a educação continuada é fundamental”, afirmam os autores.

Segundo eles, deve-se oferecer cursos e treinamentos frequentes para os colegas cirurgiões-dentistas, sobretudo os que trabalham na atenção primária, para que eles se mantenham sempre atentos à essa questão e se sintam mais preparados para conduzir ou encaminhar prontamente o paciente com alguma lesão suspeita de malignidade. Para o público geral, explica, também devemos assumir esse papel. “Com o apoio dos meios convencionais de comunicação (da imprensa), a comunicação será mais ampla e efetiva”, afirmam.

No estudo, o conteúdo informativo dos sites e redes sociais foi analisado a partir de pelo menos um dos seguintes aspectos: epidemiologia e características clínicas, fatores de risco e tratamento do câncer de boca. Dos 34 sites, 18 (33,3%) atingiram apenas dois dos quatro princípios de qualidade estabelecidos pelo JAMA (Journal of the American Medical Association). Resultado semelhante foi observado na avaliação das 39 publicações do Instragram: 19 (48,7%) atenderam a dois dos quatro itens do JAMA. “Elegemos o JAMA benchmarks como um dos métodos de avaliação, porque ele é largamente utilizado para avaliar conteúdo de saúde na Internet, validado por vários estudos na literatura internacional.

Neste método, avaliam-se como critérios a autoria do conteúdo, as referências utilizadas, a data da informação, a declaração de direitos autorais, patrocínios, políticas de publicidade e conflitos de interesse. Quanto maior o número de critérios, maior a qualidade da informação”, contam Kamilla e Danyel.  

Outro instrumento de avaliação usado pelos pesquisadores foi o DISCERN, criado por um grupo de especialistas no fim dos anos 1990, com o objetivo de ajudar pacientes a ter acesso a informações confiáveis sobre saúde e opções de tratamento. De acordo com os critérios do DISCERN, 20 sites (37%) apresentam dados de confiabilidade baixa, e 18 sites (33,3%), são considerados de confiabilidade moderada.

Para os sites, também foi usado o The Flesch Index of readability, o nível de inteligibilidade, que é o grau de dificuldade de leitura do texto, e foi verificada a presença do HONcode (Health on the Net Foundation). “Ele indica a adesão a um código de conduta para sites de conteúdo em saúde e de assistência médica, que permite aos usuários conhecer a fonte e o objetivo das informações apresentadas.

O selo HON classifica o cumprimento de oito critérios: 1. oficialidade; 2. complementaridade; 3. privacidade; 4. atribuição, referências e atualização; 5. raciocínio; 6. transparência; 7. divulgação financeira e 8. publicidade política. No estudo, em relação ao selo ou código HON, verificamos se o site possuía ou não esse selo, cuja presença do selo representa segurança da qualidade da informação para o usuário”, dizem os pesquisadores. No estudo, de 54 sites avaliados, apenas três possuíam essa certificação.

A análise dos vídeos do YouTube levou em consideração a fonte produtora ou divulgadora, as reações dos espectadores (índice de interação), os dados transmitidos sobre o câncer de boca (fatores de risco, sintomas, imagens, tratamento) e a qualidade dessas informações: não útil, ligeiramente útil, moderadamente útil ou muito útil. Dos 57 vídeos avaliados, 41 (71,9%) foram considerados moderadamente úteis.

Como esperado, a conclusão do estudo é que as informações sobre câncer de boca na Internet em português brasileiro são, na maioria, de baixa qualidade. Para os pesquisadores que realizaram as análises, as instituições educacionais e governamentais têm a responsabilidade de produzir e indicar fontes confiáveis de informação para a população. “Nós apontamos que não só as instituições governamentais, mas principalmente instituições de ensino, sobretudo as faculdades de Odontologia e os especialistas em diagnóstico bucal, devem ser produtores de informação de qualidade sobre o câncer de boca.”

Eles recomendam que, ao acessar uma página na Internet, é importante verificar se há indicação do autor do conteúdo e de bibliografia complementar, para obtenção de mais detalhes sobre o assunto. “Na consulta de perfis de profissionais de saúde, atualmente é fácil consultar em sites de busca se a formação e atuação dele dão suporte ao conteúdo postado nas mídias. Além disso, em todas as postagens é importante verificar se há referência na informação apresentada”, explicam Kamilla e Danyel.

Eles afirmam que a principal contribuição do estudo é chamar a atenção para a qualidade da informação disponível na Internet, que nem sempre é adequada. “Esperamos que sirva para deixar o público, profissionais generalistas e de outras especialidades mais atentos quanto à necessidade de checar a informação postada.

Para instituições de ensino, professores, pesquisadores, especialistas e associações de especialistas, contribui para destacar a necessidade de se engajar na produção de material informativo de qualidade sobre o câncer de boca, assumindo o protagonismo e o papel que se espera das pessoas e centros formadores de profissionais de saúde e de opiniões”.

Os pesquisadores dizem que a melhoria na difusão da informação sobre o câncer de boca também depende do apoio dos meios de comunicação convencionais. “Eles são importantes para fazer a tradução ou a ponte entre os estudos científicos e a população em geral. Entrevistas, debates ou matérias jornalísticas apresentando informações básicas e de qualidade sobre doença são fundamentais. Poderiam abordar ainda as possíveis repercussões da doença na saúde dos pacientes, com comentários de pesquisadores e especialistas na área”. 

Depois desse estudo, a ideia dos profissionais e especialistas em Odontologia é comunicar mais e melhor. “Planejamos estratégias para difundir informação de qualidade sobre o câncer de boca. A ideia é diversificar a participação nas mídias e produzir materiais que também possam ser acessíveis ao público geral. Paralelamente a isso, planejamos realizar estudos semelhantes para avaliar a informação disponível na Internet sobre outras doenças bucais que tenham alta significância clínica”, explicam.


Mariana Botta, jornalista e doutora em ciências da linguagem pela Université Sorbonne Nouvelle, especial para o jornalismOncologia

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Blog do jornalista Moura Leite Netto, botonista amador, osasquense, são-paulino, torcedor também do Napoli, Lakers e Patriots e mestre e doutorando em Oncologia.

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