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“Não há conteúdo sofisticado ou especializado que não possa ser escrito numa linguagem clara”

A frase acima é da jornalista Cristiane Segatto, vencedora do prêmio Esso de jornalismo em 2012 na categoria Informação científica, tecnológica e ambiental com a reportagem “O paciente de R$ 800 mil”.  Cristiane está completando 15 anos de atuação na revista Época, onde hoje é repórter especial de saúde e ciência. Neste período, acompanhou e noticiou os avanços relacionados à Oncologia bem de perto, casos do Projeto Genoma do Câncer Humano, o surgimento das primeiras terapias-alvo e da quimioterapia oral, além de discussões sobre acesso do brasileiro à saúde plena, dentre outros.

Nesta entrevista exclusiva ao blog jornaslimOncologia, Cristiane Segatto recorda o início de sua trajetória no jornalismo na revista Quatro Rodas, sua experiência em cobertura diária de assuntos de Geral no jornal O Estado de S.Paulo, até receber, em 1998, o convite da jornalista Martha San Juan França para ingressar como editora-assistente na revista Época, que nascia naquele ano. Em Época, Cristiane se estabeleceu como uma jornalista que é referência para aqueles que hoje ingressam na cobertura de saúde e ciência. Para ela, repertório é fundamental para se transmitir uma informação com clareza e objetividade. “Fala difícil quem não entendeu o assunto sobre o qual pretende falar. Quanto mais a gente domina um tema, mais aptos ficamos a falar de uma forma simples e objetiva”. Confira:

Cristiane Segatto, repórter especial e colunista de Época
Cristiane Segatto, repórter especial e colunista de Época

jornalismOncologia – Houve algum momento marcante em sua passagem pela redação do Estadão que despertou o interesse em focar a carreira em jornalismo voltado para a editoria de saúde?
Cristiane Segatto – Entrei no Estadão para trabalhar na editoria Geral. Era tudo o que eu queria naquele momento. Depois de três anos numa revista mensal especializada em carros (Quatro Rodas), queria ter a experiência de fazer um pouco de tudo e ganhar agilidade num jornal diário. Na Geral, fazia educação, religião, movimento dos sem-terra, comportamento, saúde, ciência — o que aparecia. Fui percebendo que gostava muito de saúde e ciência graças à influência e orientação da editora Martha San Juan França, uma jornalista experiente e reconhecida na área. O que mais de atraía era o desafio de aprender sobre assuntos difíceis e traduzi-los ao público sem cair na tentação de “falar difícil”. Sempre procurei não cair na tentação de falar numa linguagem que só os pares (os outros jornalistas de ciência ou as fontes) podem entender. Acho que esse é um vício e um erro de muitos jornalistas especializados. Sempre me policiei para evitar essa armadilha. 

Você se recorda de suas primeiras reportagens sobre câncer? Quais eram os principais desafios?
Nas primeiras reportagens, meu desafio era entender como a doença ocorria e explicar de que forma os avanços da genética estavam mudando a compreensão sobre ela. No final dos anos 90, início dos anos 2000, vivíamos o “boom” do projeto genoma e das descobertas que se seguiram. Era um momento de grandes promessas e muito exagero. Naquele tempo, minhas matérias davam ênfase excessiva às novas drogas. Eram matérias que hoje considero ingênuas. A experiência de erros e acertos me ensinou muito.

A especialização em jornalismo científico coincidiu com o convite para atuar em saúde e ciência da Época, onde hoje você é repórter especial, logo no surgimento da revista em 1998. Com qual expectativa você assumiu este desafio?
Em 1998, fui convidada para ser editora-assistente. O posto de repórter especial (o sonho da minha carreira) veiomuito tempo depois. Foram anos de batalha até conseguir. Só conquistei o posto de repórter especial depois de exercer a função de editora de saúde durante alguns anos. No início da revista quem me levou do Estadão para a Época foi a Martha San Juan. Ela havia sido convidada para ser editora de ciência e tecnologia e estava montando a equipe. Éramos oito jornalistas cobrindo exclusivamente ciência e tecnologia — algo impensável hoje. Minha expectativa era a melhor possível. Foi um grande momento da minha carreira — uma tremenda oportunidade (aprender a fazer revista semanal) e uma fase de muito trabalho. No jornal, já havia percebido que gostava do ritmo de semanal. Sempre pedia para passar a semana dedicada às matérias especiais (páginas inteiras publicadas aos sábados ou domingos). Gostava de ter a oportunidade de ler mais, pesquisar mais, me aprofundar mais e escrever textos um pouco diferentes daqueles produzidos no dia-a-dia. A superficialidade do dia-a-dia sempre foi muito frustrante para mim. Na revista, encontrei o ritmo que mais me agrada. Espero que os leitores das revistas semanais continuem enxergando algum valor nesse produto para que elas possam sobreviver por mais alguns anos… 

Nesta trajetória de 15 anos de revista Época quais são os momentos que você considera como sendo os mais relevantes em relação à cobertura de temas científicos, especialmente voltados para oncologia?
Foram muitos momentos. Na oncologia, tive a oportunidade de acompanhar o desenvolvimento das pesquisas genéticas (Projeto Genoma do Câncer, por exemplo), o entusiasmo em torno do surgimento das terapias-alvo, o lançamento da primeira quimio oral (Glivec) que mudou a história dos pacientes com leucemia mieloide crônica. Também acompanhamos as discussões em torno dos custos crescentes e da falta de acesso às novas drogas; o aumento expressivo das chances de cura nos casos de câncer pediátrico. Narramos a experiência de personalidades com o câncer — muitas vezes em primeira mão, como no caso do vice-presidente José Alencar e da atriz Patrícia Pillar. 

Quais são as regras que você busca seguir para produzir um texto que seja inteligível para o público leigo e, ao mesmo tempo, interessante para um leitor repertório mais amplo?
Meu desafio sempre foi transformar confusão em clareza e, como dizia Roberto Civita, “transformar aquilo que é relevante em algo interessante”. Em geral, fala difícil quem não entendeu o assunto sobre o qual pretende falar. Quanto mais a gente domina um tema, mais aptos ficamos a falar de uma forma simples e objetiva. Meu primeiro passo é tentar entender. E, depois, simplificar. Isso não nos impede de atrair a atenção do leitor que tem um repertório mais amplo. Não há conteúdo sofisticado ou especializado que não possa ser escrito numa linguagem clara. Acredito nisso e persigo esse objetivo todos os dias. Na dúvida, simplifico. Se o leitor com repertório especializado achar que o texto é simples demais para ele, paciência. Meu compromisso é com a clareza. 

Quais critérios você leva em consideração no momento de eleger o tema de sua coluna semanal online na Época?
É sempre bom quando consigo publicar um estudo exclusivo, uma entrevista exclusiva, um assunto inédito. Lembra daquela sua pauta sobre sexo com animais? Foi um tremendo sucesso. Muita gente agradeceu pela informação e pediu mais. Nem sempre é possível ter material exclusivo. Muitas vezes, a saída é tratar com um outro olhar, um outro ponto de vista, um assunto da semana que todo mundo está comentando. Em outras semanas, opto por um tema livre (algo mais parecido com o estilo de crônica), desde que seja possível estabelecer alguma relação com saúde. Minha escolha depende muito do meu estado de espírito na semana, do material que tenho em mãos e do tempo disponível para pensar e escrever.

Incluindo leituras de periódicos científicos e outras publicações, comente um pouco sobre sua rotina de jornalista especializada.
Toda semana recebo material embargado dos principais periódicos (Nature, Science, NEJM, JAMA, The Lancet etc). Leio pelo menos os títulos de todos. Quando o título me interessa, leio o artigo. Pode render matéria ou apenas aprendizado. Leio também alguns dos veículos estrangeiros (The Economist, New York Times, TIME, NewScientist etc) e acompanho a imprensa nacional. Acompanho o lançamento de livros no Exterior que podem render entrevistas ou reportagens. Quando rende matéria, baixo no Kindle, leio e faço matéria ou coluna. Recebo inúmeras sugestões (cerca de 400 emails, por dia, entre boas sugestões, bons releases e muito spam). Leio as sugestões, entrevisto fontes sem compromisso, cubro eventos que podem render reportagens na semana ou no futuro etc. Sugiro minhas pautas diretamente ao redator-chefe e ao diretor de redação. Eles aprovam e eu começo a fazer. Em geral, toda semana trabalho na apuração de uma matéria especial (de longo prazo), uma coluna e um boletim de rádio. Quando surge alguma notícia quente que eu preciso cobrir e publicar na mesma semana, faço isso.

O jornalismo brasileiro tem sofrido com os recentes cortes em redações de jornais impressos, descontinuidade de títulos de revistas e demissões em massa em emissoras de televisão e, em contrapartida, vê emergir uma geração de portais e páginas nas mídias sociais, além do mercado de assessorias de comunicação. Em meio a esse turbilhão, como você avalia a atual cobertura de assuntos relacionados ao câncer?
Minha impressão é a de que a cobertura de saúde de um modo geral (e do câncer, em particular) melhorou muito nos últimos anos. Quando eu comecei nessa área, os jornalistas eram muito mais despreparados do que são os da nova geração. Os jovens jornalistas que trabalham nos grandes veículos chegam ao mercado com um nível muito bom. É minha impressão. Talvez eu esteja errada. Às vezes saem umas bobagens nos portais e nas mídias sociais, mas acho que a situação já foi bem pior. 

Muitos assuntos entram na agenda jornalística quando uma personalidade desenvolve câncer, assim como ocorreu recentemente com a atriz Angelina Jolie que, com seu artigo para o New York Times relatando a sua história familiar e mutação no gene BRCA1, gerou uma cobertura maciça em todo o mundo sobre hereditariedade, retirada preventiva das mamas e ovário, dentre outros assuntos em comum. Como você avalia a cobertura como um todo que é feita durante estas situações ocasionais?
A boa cobertura depende da experiência dos repórteres destacados para fazer a matéria e do conhecimento do editor. Quando os jornalistas conhecem minimamente o assunto, têm fontes e opinião formada sobre a polêmica em questão, quase sempre o resultado é bom. O problema nessas situações emergenciais é que quase sempre os repórteres precisam ser deslocados de outras áreas quando os titulares estão comprometidos com outras apurações ou qualquer outro problema do tipo. Em casos como o da Jolie, poder contar com um repórter ou editor bem informado facilita muito a vida do diretor de redação no momento em que ele vai decidir a linha que a revista vai defender. No momento do impacto da notícia, o diretor se pergunta: “E aí? O que vamos defender? Vamos ser contra ou a favor da decisão dela?”. A decisão da linha editorial pode mudar o rumo da apuração da matéria. Por isso, é importante poder contar com profissionais especializados em todas as áreas.    

Você já recebeu mais de 10 prêmios nacionais e internacionais por suas reportagens em saúde, medicina e ciência. Uma, em especial, marcou mais sua trajetória até aqui?
Algumas foram realmente especiais. Acho que a mais marcante foi a que rendeu um Prêmio Esso para a Época no ano passado. A matéria “O paciente de R$ 800 mil” venceu na categoria Informação científica, tecnológica ou ambiental. Gosto muito dessa reportagem porque trata dos crescentes custos e das iniquidades do nosso sistema de saúde — algo que considero muito relevante. As duas reportagens que fiz com o vice-presidente José Alencar também me marcaram bastante. Ambas ganharam o prêmio de jornalismo do INCA.  

Qual orientação você gostaria de transmitir ao profissional que visa iniciar carreira no jornalismo científico?
Uma vez o professor de genética Crodowaldo Pavan, da USP, me disse que a profissão dele era a melhor que existe: “Alguém me paga para eu matar a curiosidade que tenho sobre o mundo”. Eu também acho que a minha profissão é a melhor do mundo. Alguém me paga para eu aprender e, assim como os cientistas, matar a curiosidade que tenho sobre o mundo. Em que outra profissão eu poderia telefonar para o maior especialista em qualquer assunto e dizer: “Oi, estou escrevendo sobre tal coisa e gostaria que você me desse uma aula. Posso ir até aí?” Acho que o jornalista científico precisa sentir esse prazer genuíno e renová-lo todos os dias. Se não tiver gosto pela descoberta, é melhor mudar de área. Precisa ser curioso, criterioso e esforçado (muito esforçado). O resto (estilo, fontes, reconhecimento) vem com o tempo.  

Saiba mais sobre Cristiane Segatto – Perfil no Portal dos Jornalistas – http://www.portaldosjornalistas.com.br/perfil.aspx?id=2928 

Coluna semanal de Cristiane Segatto no site da Época – http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/

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Blog do jornalista Moura Leite Netto, botonista amador, osasquense, são-paulino, torcedor também do Napoli, Lakers e Patriots e mestre e doutorando em Oncologia.

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