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“No episódio fosfoetanolamina há uma questão criminal”

A afirmação é do médico clínico intensivista e comentarista de saúde da rádio CBN, da TV Globo e do Globonews, Luis Fernando Correia, que critica a distribuição durante 12 anos da “pílula da USP” para pacientes em tratamento de câncer por parte da equipe liderada pelo pesquisador Gilberto Chierice. Lei que propõe a liberação de produção deste suposto medicamento, sem qualquer evidência científica de possível eficácia em seres humanos, foi aprovada essa semana no Senado, decisão que é avaliada por Correia como demagógica.

correiaLuis Fernando Correia graduou-se em Medicina pela UNIRIO, em 1988. É especialista em clínica médica e terapia intensiva, tendo dirigido a Unidade de Emergência do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. Na condição de médico do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Correia dirigiu a Policlínica da Vila Pan-Americana (Rio 2007) e, no ano seguinte, foi aos Jogos Olímpicos de Pequim como médico da delegação brasileira. Em 2013, atuou como responsável médico na Copa das Confederações e, em 2014, como coordenador-geral do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo, no Brasil.

Em entrevista exclusiva para o blog jornalismOncologia, Correia aborda, além da fosfoetanolamina, outros temas relacionados ao câncer que, em sua visão, precisam ser enfatizados na agenda jornalística e nas decisões dos gestores de saúde, dentre eles a desmitificação da vacina contra o vírus HPV, ênfase à obesidade como fator de risco para desenvolvimento de câncer e o não esmorecimento das campanhas de conscientização sobre os males do tabagismo.

JornalismOncologia – Apesar das evidências científicas que consolidam a vacina contra o vírus HPV como estratégia eficaz para prevenção de câncer de colo do útero ainda é baixa a adesão no país das campanhas de vacinação na rede pública. Como você avalia a comunicação que vem sendo adotada e quais medidas seriam necessárias para desmitificar as questões que dificultam a aceitação por parte da população?

Luis Fernando Correia – Acredito que é necessário levar ao público a informação com base científica, transmitindo-a de maneira simples. A ideia de levar a discussão sobre a vacina contra HPV para dentro das escolas foi excelente, pois é na escola que as meninas estão. No entanto, precisamos também treinar o professor, o profissional de saúde e o jornalista.  Muitas vezes, quando se trata de um assunto desses, esses profissionais sabem tanto quanto um leigo. A pessoa pode, por exemplo, ter um título de médico, mas se ela não estiver atualizada sobre as pesquisas referentes à vacina ela pode ter os mesmos preconceitos e conceitos errados. Isso vai impactar negativamente em uma campanha. Precisamos dar às pessoas as informações dentro do contexto real. É claro que a gente vai sempre enfrentar preconceitos, ainda mais quando se trata de algo que mexe com o comportamental, que é o HPV, mas precisamos não esmorecer e levar informação qualificada.

jornalismOncologia – E qual seria a forma mais eficaz de difundir essas informações qualificadas?

Correia – No mundo inteiro a implantação da vacina foi difícil, pois os preconceitos eram os mesmos, envolvendo temas como iniciação sexual das meninas, que são um tabu para muitos pais. Nossa missão é esclarecer, falar muito sobre isso e de forma aberta. Por outro lado, é necessário treinar o próprio jornalista. Passei os seis últimos anos em redação e, neste período, vi que o jornalista também tem esse preconceito. Por mais que o jornalista tenha sido treinado para tentar se manter isento, ele traz os mesmos conceitos que demais profissionais. Então, se você não treinar esse cara para ler um trabalho científico, entender a linguagem científica, como é desenvolvida as etapas de uma pesquisa, como ela funciona, ele terá as mesmas dúvidas. Além disso, têm médicos como eu que trabalham na mídia e tem gente na mídia falando de saúde, sendo que essas pessoas nunca se encontraram num ponto de encontro. Nenhuma das duas faculdades forma os seus especialistas – médicos e jornalistas – para falar de saúde. A faculdade de Medicina não ensina ninguém a falar fácil e, pelo contrário, ensina você a falar mais complicado e a faculdade de jornalismo não ensina você a entender a linguagem da Medicina para poder “traduzir” aquilo para o público. Então vira uma conversa de surdo.

jornalismOncologia – A imprensa insiste em querer curar o câncer antes da Medicina e da Ciência, sendo que o mais recente capítulo é a fosfoetanolamina. Como você avalia a forma que esse assunto surgiu e perdura há meses na agenda jornalística?

Correia – Nesse caso específico há uma situação muito simples no meu entender. Há uma questão criminal. O que fez esse doutor (Gilberto Chierice) é criminoso. Durante 12 anos – e não consigo entender como ele fez durante todo esse tempo e ninguém viu – ele distribuiu um medicamento que nunca foi testado em seres humanos. Além disso, os políticos estão usando isso de maneira demagógica, indo adiante com uma lei que está passando por cima da ciência. Não existe isso em nenhum lugar do mundo. Não são eles, deputados e senadores, que têm que decidir isso. Eu entendo a angústia de uma pessoa em tratamento de câncer. A minha mãe morreu de câncer. Nem por isso eu daria essa coisa para ela sem saber o que é. A ciência existe e isso é por alguma razão. É preciso seguir o rito. Isso aí (a fostoetanolamina) é uma grande bobagem, uma grande alucinação coletiva e os políticos estão explorando a angústia e desespero das pessoas.

jornalismOncologia – Se por um lado a mídia desinforma, ela também é capaz de impulsionar o êxito de campanhas de prevenção e diagnóstico do câncer. Como você avalia as ações antitabagistas no Brasil?

Correia – A mídia deu uma contribuição muito grande para a queda do percentual de fumantes no país. O governo, por meio do INCA, exerceu um papel importante para o controle do tabagismo tendo como aliada a mídia, que encampou essa briga. Além disso, os próprios mecanismos da sociedade, dentre eles o CONAR – proibindo a propaganda – e as legislações, que foram aprovadas e se mostraram muito eficientes, foram fundamentais em todo o processo. Agora, por sua vez, nós não podemos baixar a guarda. Estamos em um momento muito perigoso em relação ao tabagismo, no qual, embora tenhamos conseguido reduzir em muito a taxa de utilização, ainda existem mecanismos de apresentação do tabaco que têm que ser mais rigidamente controlados. Caso contrário, daqui mais 20 anos nós vamos ter uma nova geração de fumantes.

jornalismOncologia – Isso porque a indústria tabagista se reinventa?

Correia – Exato. Ela se reinventa, muda de local, muda de estratégia. Então, vemos no Atlas do Câncer (lançado pela American Cancer Society e Hospital de Câncer de Barretos na última semana durante evento em São Paulo), que a situação mais importante nos países desenvolvidos não é mais o cigarro e sim o tabaco sem fumaça, o narguilé, enfim, outras apresentações que, no fim das contas, são a mesma coisa. O novo alvo é a população jovem.

jornalismOncologia – Ainda falando sobre o Atlas, a obesidade e a alta incidência de câncer de intestino na população brasileira são temas que merecem grande atenção por parte da mídia?

Correia – Sim. A gente vai ter que entender um dia que obesidade, sedentarismo e as doenças crônicas são uma coisa só. Você não vai combater só a obesidade, só o diabetes ou só o sedentarismo. Você vai combater tudo isso de uma só vez, para que essa ação tenha, de fato, efeito sobre uma série de doenças crônicas não transmissíveis no mundo.

jornalismOncologia – Em linhas gerais, quais são os temas sobre câncer mais urgentes?

Correia – O jornalismo tem que abordar e de maneira clara como é que funciona uma pesquisa. Para as pessoas esse tema pode ser chato e transformar isso em notícia de fácil entendimento é uma tarefa árdua, mas é necessário ter isso como meta. A gente também tem que manter as discussões sobre tabagismo, ainda mais diante dessas novas estratégias da indústria tabagista; assim como falar, principalmente no Brasil, sobre câncer de colo de útero não só do contexto do HPV, mas também do screening (rastreamento), pois as mulheres querem fazer o exame e sem sempre conseguem. Há também a falta do tratamento. Devemos deixar bem claro que não é com a caneta que o governo vai resolver o problema do câncer no Brasil, ou seja, dizendo que vai tratar o câncer em até 60 dias, pois ele não trata, isso é uma fantasia louca de alguém de Brasília que assinou um papel.

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Blog do jornalista Moura Leite Netto, botonista amador, osasquense, são-paulino, torcedor também do Napoli, Lakers e Patriots e mestre e doutorando em Oncologia.

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